Entenda a suspensão temporária da vacina de Oxford em alguns países europeus

< Voltar

20/02/2021

Ao menos 13 países da União Europeia suspenderam temporariamente o uso da vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca, depois de relatos de formação de coágulos em pessoas vacinadas (veja a lista completa abaixo).

Na semana passada, DinamarcaNoruega e Itália foram os primeiros em anunciar uma pausa nas aplicações para analisar dados da vacinação após a Áustria suspender um lote da vacina por conta de uma morte por embolia pulmonar – que poderia ser consequência da formação e desprendimento de um coágulo.

Coágulo é uma espécie de bloco de sangue com consistência mais sólida.

As autoridades sanitárias destes países ponderam, no entanto, que não há a comprovação de que a vacinação tenha aumentado a incidência de coágulos em pacientes – mas reforçam que o evento adverso pede por precaução.

Os governos da Bélgica, Polônia, Romênia e Grécia se posicionaram contrários a esta suspensão. Segundo eles, a falta de vacinação pode causar ainda mais problemas que os efeitos adversos discutidos.

A União Europeia tem ao menos quatro vacinas autorizadas para a aplicação nos 27 países membros do bloco. A primeira a ser autorizada, em dezembro de 2020 foi a da Pfizer/BioNTech. Ainda estão disponíveis as vacinas da Moderna, Oxford/AstraZeneca e Janssen (Johnson & Johnson).

Veja a seguir o que se sabe até o momento sobre essa pausa:

A vacina é segura?

SIM. A vacina de Oxford é segura. Sua segurança foi comprovada em um estudo de fase 2 publicado, no ano passado, pela renomada publicação científica "The Lancet".

Segundo o artigo, a vacina induziu "uma forte resposta imune" em idosos e registrou apenas reações adversas leves como dor no local da injeção, fadiga, dor de cabeça, febre e dor muscular.

O diretor da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), Emer Cooke, afirmou que "não há indicações" de que as vacinas sejam causadoras destes coágulos. Ele disse também que especialistas da organização apresentarão um parecer atualizado sobre a vacina em 18 de março.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também já declarou diversas vezes que a vacina de Oxford é segura, tanto que a agência de saúde das Nações Unidas aprovou seu uso emergencial.

"Ela é muito segura, não só porque foi testada mas também porque isso [a pausa] mostra que ela está sendo monitorada", explica a biomédica Mellanie Fontes-Dutra.

A vacina de Oxford já foi suspensa antes em algum lugar antes?

A suspensão temporária das aplicações após o aparecimento de eventos adversos é um procedimento comum. Isso aconteceu com a vacina de Oxford, ainda na fase de estudos, quando um paciente do Reino Unido apresentou uma reação que poderia estar ligada à vacina.

Naquela época, o laboratório suspendeu o estudo de segurança e eficácia temporariamente. Os ensaios voltaram semanas depois, quando uma equipe independente de cientistas comprovou que um efeito adverso registrado não tinha relação com a vacina.

No início do ano, o governo da Alemanha chegou a pedir que a vacina de Oxford não fosse aplicada em idosos. Isso porque as autoridades sanitárias do país questionaram a quantidade de estudos da vacina para essa faixa etária.

No entanto, a Alemanha voltou atrás e – no começo de março – recomendou a aplicação da vacina em pessoas com mais de 65 anos.

A Noruega também já havia acendido um alerta contra outra vacina, a da Pfizer/BioNTech, depois que 33 idosos morreram após tomar a primeira dose – mas uma investigação independente não ligou as mortes com o imunizante.

Já a África do Sul suspendeu a vacinação com a vacina de Oxford depois que um estudo preliminar – e apenas com voluntários jovens – apontou que o imunizante era menos eficaz para a variante 501Y.V2, dominante no país.

Quais países suspenderam a vacina desta vez?

  • Áustria
  • Dinamarca
  • Noruega
  • Itália
  • Holanda
  • Alemanha
  • França
  • Espanha
  • Portugal
  • Luxemburgo
  • Suécia
  • Lituânia
  • Eslovênia

Como isso afeta a vacinação no Brasil?

A vacina de Oxford/AstraZeneca é uma das duas usadas no Brasil – a outra é a vacina CoronaVac feita em parceria pela chinesa Sinovac com o Instituto Butantan – que foram aprovadas para uso emergencial pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Questionada pelo G1, a Anvisa disse em nota que "está acompanhando e buscando informações junto às autoridades internacionais sobre possíveis eventos adversos relacionados ao uso da vacina de Oxford".

Segundo a agência, não há evidências que apontem – até o momento – para uma relação entre o uso da vacina e a ocorrência de casos de trombose e embolia pulmonar como foi relatado por pacientes na Áustria.

Disse ainda que o lote da vacina que foi suspenso de uso pelas autoridades da Áustria não veio para o Brasil e que nenhum brasileiro vacinado apresentou casos de embolismo e trombose associados às vacinas para Covid-19.

A formação de coágulos está relacionada à vacina?

Coágulo que causa trombose — Foto: Reprodução/TV Globo

Não há nenhuma relação já estabelecida até o momento entre a vacina e a formação de coágulos no sangue.

"Não é porque duas coisas acontecem ao mesmo tempo, que elas têm uma relação de causa e consequência", explica Fontes-Dutra. "É preciso de mais estudos para estabelecer essa relação causal."

A biomédica reforça que a pausa nas aplicações é um mecanismo a mais de segurança no processo de produção e distribuição de vacinas.

Ela aponta ainda que relatos como estes devem ser analisados, e que eles sempre vão acontecer, mas que a pausa não significa que a vacina seja insegura.

"A gente já viu isso para várias outras vacinas, também para as contra a Covid-19", disse a Fontes-Dutra.

Na Dinamarca, o ministro da Saúde, Magnus Heunicke, disse em entrevista coletiva que "no momento" não é possível concluir que exista essa relação, mas que a decisão de suspender foi preventiva – a relação também não foi comprovada pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA).

Segundo a agência, o número de casos de tromboembolismo pulmonar – marcado pela formação de coágulos sanguíneos – em pessoas que receberam a vacina da AstraZeneca não é maior do que aquele visto na população em geral.

O que diz a AstraZeneca?

O laboratório britânico AstraZeneca afirmou em nota que "não há provas de um risco agravado" de trombose em decorrência da aplicação de sua vacina contra a Covid-19.

"Uma análise dos nossos dados correspondentes a mais de dez milhões de casos mostrou que não há provas de um risco agravado de embolia pulmonar, ou de trombose venosa profunda, em qualquer grupo de idade, sexo, lote, ou em qualquer país em particular."

"De fato, o número identificado desse tipo de evento é significativamente menor nos vacinados do que se esperaria na população em geral", diz o comunicado.

Questionada pelo G1 sobre os casos suspeitos de coagulação em países europeus, a Universidade de Oxford disse que não iria comentar.